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Antero de Quental foi um dos representantes do Realismo em Portugal. (Foto: Wikipedia) |
O Realismo em Portugal consolida-se a partir do final da década de 1860, em um contexto de intensas transformações políticas, sociais e culturais. Seu surgimento está diretamente associado à chamada Questão Coimbrã, episódio que simboliza o rompimento de uma nova geração de intelectuais com os valores tradicionais defendidos pelo Romantismo.
Esse movimento expressa o pensamento crítico da elite intelectual portuguesa, que demonstrava crescente insatisfação com instituições como a monarquia e o clero. As ideias realistas ganham força sobretudo nos ambientes acadêmicos, com destaque para a cidade de Coimbra, importante centro de formação intelectual do país.
A Escola Realista portuguesa estende-se aproximadamente até 1890, ano em que Eugénio de Castro publica Oaristos, obra poética influenciada pelo Simbolismo francês, marcando o declínio do Realismo e a transição para novas correntes literárias.
A Questão Coimbrã
O ambiente intelectual favorável ao Realismo tem como marco a Questão Coimbrã, ocorrida em 1865. Nesse episódio, jovens estudantes da Universidade de Coimbra, atentos às ideias modernas oriundas da Alemanha, da França e da Inglaterra, entram em confronto com escritores ligados a uma estética literária mais conservadora.
Na década de 1870, esse grupo de intelectuais promove um conjunto de debates conhecidos como as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, que discutiam temas como literatura, política, ciência e sociedade, contribuindo decisivamente para a difusão do pensamento realista em Portugal.
Entre os participantes desse movimento estava Eça de Queirós, que, embora não tenha atuado diretamente na Questão Coimbrã, aderiu aos ideais realistas e tornou-se um de seus maiores representantes.
Contexto Histórico
O Realismo surge como uma reação direta aos excessos subjetivos e idealizadores do Romantismo, predominantes na primeira metade do século XIX. No cenário europeu, esse período coincide com a segunda fase da Revolução Industrial, marcada pelo avanço científico e pelo fortalecimento de novas correntes filosóficas e sociais.
Ideias difundidas por pensadores como Hegel, Auguste Comte, Karl Marx, Friedrich Engels e o evolucionismo de Charles Darwin influenciaram profundamente a visão de mundo dos escritores realistas, que passaram a privilegiar a observação objetiva da realidade e a análise crítica da sociedade.
Principais Características do Realismo
Entre as características mais marcantes do Realismo em Portugal, destacam-se:
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Objetividade na análise dos fatos
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Influência do cientificismo e do materialismo
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Rejeição do sentimentalismo romântico
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Crítica às instituições tradicionais, como a monarquia e o clero
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Valorização do presente e da realidade social concreta
Principais Autores e Obras
Antero de Quental (1842–1891)
A produção literária de Antero de Quental pode ser compreendida em diferentes fases, relacionadas à sua trajetória intelectual e pessoal. Seus primeiros poemas ainda apresentam traços do Romantismo, anteriores à Questão Coimbrã.
Com a publicação de Odes Modernas, o autor inaugura uma fase de poesia engajada, marcada por forte conteúdo crítico e influência das ideias difundidas em Coimbra. Já a obra Os Sonetos é considerada pela crítica como o ponto mais alto de sua produção, destacando-se pelo rigor formal, profundidade filosófica e clareza lógica.
Eça de Queirós (1845–1900)
O Realismo português encontra em Eça de Queirós seu maior representante na prosa. Sua fase realista é marcada pela série Cenas da Vida Portuguesa, que inclui romances como O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias.
Nessas obras, o autor constrói um amplo retrato da sociedade portuguesa do século XIX, abordando temas como a hipocrisia social, a influência do clero, os costumes da burguesia lisboeta, a decadência da aristocracia e os dilemas dos intelectuais da época.
